Com o nível do mar cada vez
mais alto, ilhas paradisíacas do Pacífico Sul estão desaparecendo. E os
moradores estão se transformando nos primeiros refugiados do
aquecimento global.
por Giovana Vitola - Revista Superinteressante (jan/2007)
As ilhas paradisíacas do Pacífico Sul estão
sumindo. Em poucos anos, algumas delas devem ficar desertas: cansados
das freqüentes inundações, os moradores estão indo embora. Entre as 12
nações-arquipélagos da região, duas estão em alerta máximo. Com a
elevação do nível do mar, os países de Kiribati e Tuvalu podem ser
engolidos pelo mar, saindo do mapa de vez até o fim deste século. Hoje,
quem mora nessas ilhas conhece paisagens bem diferentes das fotos
turísticas. No começo do ano, marés altas provocam inundações a toda
hora. A água invade as casas e causa erosões. Com as raízes atacadas
dia a dia pelas ondas, as palmeiras estão caindo. Quando a maré sobe,
poças d’água surgem repentinamente, espalhando o lixo pelas ruas de
areia. Em algumas regiões, já é possível atingir água cavando apenas 1
metro de profundidade.O governo dos dois países já preparou um programa
de emergência para arranjar alojamento para seus 115 mil moradores, os
primeiros refugiados do aquecimento global.
O fenômeno é uma das provas dramáticas do
aquecimento da Terra. Com a temperatura do planeta 0,7 oC maior no
último século, as calotas polares derretem e o nível do mar aumenta. No
Alasca, as ruas feitas de gelo há séculos estão esburacando e
derretendo. Na Antártida, placas de gelo do tamanho de cidades se
descolam com freqüência cada vez maior. O efeito é ainda mais incômodo
para quem vive em lugares como Tuvalu, o 4o menor país do mundo, onde o
ponto culminante tem 5 metros de altura e a largura das ilhas não passa
de 500 metros. "Com todos os fatores que temos vivenciado, Tuvalu irá
lentamente erodir nos próximos 40 ou 50 anos", afirma Tauala Katea,
cientista do centro meteorológico de Tuvalu. A ironia é que pequenas
nações como essa contribuem pouquíssimo com a poluição ou com o
aquecimento do planeta.
Em Tuvalu e Kiribati, os moradores importam
80% do que comem. A economia de Tuvalu depende da remessa de dinheiro
dos tuvaluanos que moram no exterior e da venda do domínio de internet
".tv". Em 1998, o país recebeu de emissoras de televisão americanas US$
50 milhões por poderem usar o ".tv" por 12 anos no endereço da
internet. Até o século 19, Tuvalu foi colônia espanhola, com milhares
de habitantes levados ao Peru e à Bolívia como escravos. Depois, os
dois países se tornaram colônias britânicas - Tuvalu faz parte da
monarquia britânica até hoje. Durante as batalhas do Pacífico na 2ª
Guerra Mundial, Kiribati foi invadido pelo Japão. Depois, abrigou
testes nuclea-res americanos. Aconteceram ali testes de bombas de
hidrogênio que assustaram o mundo na década de 1950 por serem 5 mil
vezes mais potentes que a bomba lançada em Hiroshima em 1945. Hoje, os
dois países abrigam pescadores e artesãos. As mulheres andam na rua com
suas blusas e saias largas e coloridas, e até as autoridades vestem-se
à vontade, como o presidente de Kiribati, que concede entrevistas de
camiseta simples e chinelo. As crianças passam o dia nos coqueiros e na
praia. No entanto, todos percebem o que está acontecendo com o seu
paraíso particular.
Perigo em casa
O
pior acontece entre os meses de janeiro a março, quando marés altas são
mais comuns. As ruas de Tuvalu ficam freqüentemente alagadas e algumas
casas, cobertas por água. A fúria do mar, cada vez mais freqüente,
chega muitas vezes a ultrapassar as barreiras de cimento que protegem
estradas entre uma ilha e outra. Diques estão espalhados por toda
parte, na esperança de conter a água. Se há aumento repentino da maré,
plantações de bwabwai (raiz rica em amido, um dos principais cultivos
de Kiribati) ficam alagadas de repente. Quando o nível do mar volta ao
normal, deixa a terra salgada, secando as árvores e fazendo com que
arbustos mais resistentes ocupem a terra.
A situação fica mais preocupante porque o
começo do ano coincide com a época de ciclones tropicais na região.
Como a maioria das ilhas é redonda e formada por corais, quando um
ciclone aparece não há para onde correr nem o que salvar. Já foram
registradas ondas de 3,48 metros de altura em Tuvalu.
Em Kiribati, a erosão costeira está em todos
os lados. Uma série de tempestades em 2001 fez com que algumas ligações
entre as ilhas desaparecessem. A ilha de Tepuka Savilivili, do
arquipélago de Tuvalu, teve suas últimas palmeiras arrastadas e foi
encoberta pelas ondas depois de um ciclone. Para conter o avanço da
água, os moradores fazem proteções na beira-mar, que precisam ser
freqüentemente refeitas. Mas as ilhas não estariam a salvo nem se
paredes indestrutíveis a cercassem. Como o solo é poroso, a alta das
marés força a água subterrânea para cima. É por isso que acontecem
inundações repentinas e poças d’água surgem mesmo em dias claros. Esse
movimento é contido pelos recifes de corais que circundam todas as
ilhas do Pacífico Sul. O problema é que, também por causa do
aquecimento global, os corais do Sri Lanka até a Nova Zelândia estão
morrendo.
Com a água nos pés, os moradores se batem até
para lidar com os mortos. Em 2004, a kiribatiana Wanita Limpus teve que
exumar o corpo do avô, enterrado na ilha de Betio, uma das maiores do
país.
"Em vez de encontrarmos o corpo do meu avô, encontramos água,
a só 1 metro de profundidade", diz ela. Hoje morando na Austrália,
Wanita se impressiona com a força do mar sempre que volta ao país de
origem. "A água cada vez mais invade as casas." Os cientistas locais
confirmam a impressão dos moradores. "O nível do mar está subindo
continuamente nos últimos anos", afirma Nakibae Teuatabo, da Unidade de
Mudança Climática do Ministério do Meio Ambiente do país. Segundo ele,
em algumas ilhas o índice de erosão chega 2,5 metros por ano. "Quanto à
temperatura das ilhas, estamos certos de que ela também aumentou."
Ciência urgente
Segundo
dados dos últimos 50 anos, coletados pela Universidade do Havaí, o
nível do mar na região vem se elevando1,07 milímetro por ano, em média.
Outras medições falam em 0,8 milímetro anualmente. Em 1992, o
Centro Nacional Australiano de Meteorologia iniciou um megaprojeto para
coletar dados marítimos indiscutíveis. O sistema tem estações de
medição em 12 ilhas do Pacífico Sul, cada uma com sensores acústicos,
medidores de temperatura, pressão, e métodos para descontar do cálculo
marés e movimentos das placas continentais da Terra. "Mas ainda é cedo
demais para obter estatísticas em longo prazo da alteração do nível do
mar na região", afirma Nick Harvey, professor de Estudos Ambientais da
Universidade de Adelaide, Austrália.
Também é provável que a população das ilhas tenha sua parcela de
culpa pelo que acontece em casa. Para o oceanógrafo John Hunter, do
centro de pequisas australiano Antarctic Climate and Ecosystems, o
aumento de eventos como alagamentos insulares pode estar vinculado ao
aquecimento global, mas talvez não. "Nós simplesmente não podemos
confirmar nada no momento. Os problemas de Tuvalu com o nível do mar e
a salinidade são complexos e podem ter múltiplas causas", diz ele.
Outras influên-cias poderiam ser ondas mais altas devido a tempestades,
redução da chuva, aumento da erosão costeira por causa de construções
em locais inadequados, o uso demasiado de água doce e a falta de
tratamento de esgoto. "Todos esses fatores estão relacionados."
Hora de dar adeus
Com o mar subindo ou não, por causa
do aquecimento global ou não, o fato é que a perspectiva para o futuro
dos países-ilhas não é animadora. O Pacífico Sul está numa das mais
fortes áreas de calor do planeta, o que faz o nível do mar lá ser 9
milímetros maior que a média dos oceanos. Até o fim deste século, a
temperatura média do mundo pode aumentar 5,8 oC e o nível do mar subir
até 48 centímetros. Com essa elevação, ilhas que estão apenas cerca de
meio metro acima do mar sofrerão com permanentes inundações. A erosão
nas áreas costeiras também deve aumentar, destruindo algumas ilhas por
completo. A melhor opção é adaptar-se às mudanças climáticas da Terra,
ou seja: ir embora de lá. "Mais cedo ou mais tarde, as ilhas dessa
região deverão ser abandonadas", afirma John Hunter.
Já estão sendo. Sem esperança de que a situação melhore, o governo
dos dois países preparou uma retirada gradual. Há uma comunidade
kiribatiana em Brisbane, na Austrália, com os cerca de 60 primeiros
refugiados do aquecimento global. Dois em cada 10 tuvaluanos estão
vivendo fora do país, a maioria deles em Auckland, Nova Zelândia. A
comunidade de Tuvalu é a que cresce mais rápido por lá. Os dois países
seguem procurando abrigo. O problema é que nem sequer os vizinhos
ajudam. Há 10 anos, o governo australiano proibiu que refugiados de
Tuvalu e Kiribati mudassem para a Austrália. Em contrapartida, na Nova
Zelândia há uma cota de 75 refugiados para ingressar por ano - nesse
ritmo, levaria 1 200 anos para toda a população evacuar o país.
Como a maioria dos moradores tem uma vida típica de nativos de
praia, quando decidem ir embora das ilhas, são obrigados a mudar também
de estilo de vida. "Aqui você tem que ter um salário. Tudo é um
desafio. Tudo custa dinheiro", afirma Telaki Taniela, um tuvaluano de
32 anos que mora em Auckland. Telaki passou a infância brincando na
praia de Funafuti, capital do país, onde as únicas coisas que precisava
saber era como pescar e como subir nos coqueiros das ilhas. Em 1997,
ele resolveu fugir do aquecimento global com toda a família. Quando
chegou ao território neozelandês, decidiu abrir um mercadinho para
sustentar os filhos e a mulher. "Antes bastava pescar para a gente
sobreviver", afirma. "Mas, como não quero acordar um dia dentro d’água,
tive que vir para cá."
Por isso, um sentimento de melancolia toma a comunidade tuvaluana na
Nova Zelândia. Fala Haulangi, uma líder dos exilados de Tuvalu em
Auckland, resolveu montar um programa de rádio semanal sobre a cultura
tuvaluana. Sua principal preocupação é os moradores perderem a
identidade com o país. "O que eu vou ser se meu país desaparecer? Sou
de Tuvalu, um país que não existe mais", diz ela. Leilani Gosschalk,
uma tuvaluana que também vive na Austrália, passou a infância na ilha
de Tepuka Savilivili, que hoje não existe mais. "Acho inevitável que
nossa cultura e nossa terra acabem", diz.