Acaso?
Marcelo Henrique Pereira
Mestre em Ciência Jurídica
Ainda perplexos com a notícia do maior acidente aéreo ocorrido no Brasil, com 155 mortos, focamos nossa atenção em um dos “sobreviventes”, Wellington Pípolos, consultor de empresas, que, horas antes do embarque do vôo 1907, da Gol, desistiu de voar, remarcando a passagem para o dia seguinte, em função do excesso de escalas da viagem.
Em entrevista a um dos principais meios de comunicação do país (jornal Folha de São Paulo), Wellington mencionou ser a segunda vez que ele desiste de um vôo que se envolve em acidente. No primeiro caso, em 2004, deixou de embarcar num avião da Rico, que caiu em Manaus e vitimou 33 pessoas. Antes disso, seu pai também havia sobrevivido de um acidente aéreo, mas, no neste caso, ele estava na aeronave, tendo sido resgatado com fratura em algumas costelas.
Situações como esta nos fazem pensar: existe acaso? Por que alguém que deveria estar num evento fatídico, de repente, desiste ou é “impedido” de estar naquele local e momento?
Existem, na crônica popular, casos de pessoas que foram “aconselhadas”, como que por uma voz interior, dizendo: - Não vá! Outras, sem qualquer razão aparente, resolvem adiar a viagem, sem mesmo justificar para si ou para os circunstantes. E há, ainda, aqueles que sofrem atrasos involuntários (furou um pneu, esqueceu um documento e teve de voltar, sofreu uma colisão automobilística, etc.). O imaginário das pessoas e a crendice, em muitos casos, aponta para “mensagens de anjos”, “proteção de santos”, “milagres”, ou coisas do gênero.
Para nós, espíritas, no entanto, a situação não é acidental, nem, tampouco, obra do acaso, já que o único “acaso” aceito pela Doutrina Espírita, é o inteligente. Não há, na filosofia espírita, espaço para “sorte” ou “azar”, “ventura” ou “maldição”, e cada ser vive o que está contido na Lei de Causa e Efeito, uma diretriz inteligente que, longe de ser absoluta e pré-determinada (inafastável) para todas as circunstâncias, nos coloca no ponto de partida e de chegada de todas as situações que conosco ocorrem, nesta e em outras encarnações. O que queremos dizer, neste sentido, é que, mesmo considerando o chamado “planejamento encarnatório”, feito ainda no plano espiritual, com, em regra, nossa anuência, que estabelece as principais contingências da próxima vida, o direito (inalienável) ao livre-arbítrio possibilita a alteração do plano, em virtude de nossas escolhas presentes. Podemos dizer, assim, que há “tendências”, “caminhos”, “diretrizes”, mas, no plano concreto, somos nós quem tomamos as decisões, sempre.
Falando em tomada de decisão, como a doutrina advoga a idéia da presença de mentores espirituais (anjos de guarda ou protetores) para cada um de nós, em sede de missão (de orientação, particular em relação a cada espírito), evidentemente aquilo que chamamos “intuição”, “sexto sentido”, ou, “voz interior”, é, na verdade, a sugestão (não indução) de alguém que “nos quer bem” e que “deseja o nosso sucesso”, para que possamos tomar as “melhores” decisões, caso a caso. No entanto, como aponta a cátedra espírita, ele (o protetor) não interfere em nossas escolhas e, quando resolvemos fazer “o que bem entendemos”, ele se afasta, momentaneamente, retornando após, para continuar a sua tarefa.
No caso em tela, do “sobrevivente” que não embarcou, provavelmente o mesmo tenha sido “aconselhado” a não embarcar, inclusive com o argumento do “excesso de escalas”, evitando, assim, que o mesmo pudesse estar envolvido na situação fatídica. É de se ressaltar que não havia, assim, no “plano encarnatório” de Wellington, a “previsão” do desencarne violento (no acidente), mas, deixemos bem claro que, se porventura ele tivesse prosseguido em sua intenção de embarcar, naquele momento seu planejamento estaria sendo refeito (realinhado) e, no caso de, realmente, ele desencarnar vítima da catástrofe, novas contingências espirituais estariam sendo compostas, e o aprendizado espiritual seria dela decorrente, de vez que “tudo se aproveita, e nada é descartado”, em termos de evolução e trajetória espiritual. Se, do contrário, por um “milagre” (provocativamente assim falando), ele conseguisse escapar com vida – embora com seqüelas – estaria demonstrada, a priori, a evidência de que, como diz o dito popular, “não era a sua hora”, expressão curiosa mas significativa, mesmo em termos de filosofia espírita, porque, no cerne da questão fica a idéia de que os planos – mesmo sendo refeitos e realinhados a cada passo, em virtude de nossas ações ou omissões, escolhas e decisões – não obedecem a nenhum acaso. Tudo se encadeia, na trama de ações e reações de nossas existências, colocando-nos, sempre, na posição de “atores principais” do cenário de nossas vidas.
Artigo inédito enviado pelo autor para ser publicado
pela A ERA DO ESPÍRITO.